O padrão: o cliente fala da própria rotina; conta como vive, como chega em casa no fim do dia, o que cansa, o que acolhe, o que já tentou antes e não funcionou, etc. O profissional escuta, anota, concorda. Algum tempo depois, o projeto chega. É bonito. Está tecnicamente correto. Segue boas referências, tendências atuais, soluções consagradas. Funcionou.
Será? Algo não está encaixando...
O cliente comenta, com cuidado:
“Aqui a circulação fica difícil.”
“Esse material não funciona para a minha rotina.”
“Eu me sinto desconfortável nesse ambiente.”
É válido – ele se percebeu e sentiu.
A resposta vem:
“Mas essa é a melhor solução para o espaço.”;
“Tecnicamente, está perfeito.”;
“Confia, você se acostuma.”
Lamento informar, mas isso não vai se sustentar...
Quando o profissional encerra a conversa com a frase ‘tecnicamente está correto’, algo importante acontece: o diálogo se fecha, mesmo que as responsabilidades continuem sendo de ambos.
Se o espaço não funciona emocionalmente, se a casa cansa, se o morador não se reconhece ali, a conclusão implícita passa a ser: “O problema não é o projeto. É o cliente.” Esse deslocamento é confortável para quem projeta — e profundamente injusto para quem habita. Porque transforma desconforto em falha pessoal e tira do profissional qualquer implicação sobre o impacto real do que foi proposto.
Existe um desrespeito silencioso, socialmente aceito, que acontece quando alguém decide o que é melhor sem escutar de verdade. Na arquitetura, ele aparece quando:
- a técnica se sobrepõe à vida;
- a estética invalida o sentir;
- o discurso profissional neutraliza a experiência do outro.
O espaço funciona no papel. Mas exige adaptação constante de quem vive ali. E viver se adaptando o tempo todo cansa. Gera desconforto contínuo. Aos poucos, rompe o vínculo com a casa. Isso não constrói pertencimento. Isso não acolhe. Isso afasta as pessoas do processo. E daí vem a incerteza, a complicação e o processo não se sustenta.
Existe um equívoco comum quando se fala em escuta no processo de projeto. Escutar não é dizer “amém” para tudo o que o cliente (e até fornecedor) fala. Escutar é:
- compreender o que está sendo pedido;
- traduzir isso tecnicamente;
- explicar limites com clareza;
- propor alternativas possíveis;
- e assumir responsabilidade pelas escolhas feitas.
Um bom projeto não é aquele que funciona “em tese”. É aquele que funciona para aquela vida específica. Nem toda solução top de linha, funciona para todo mundo. Nem toda tendência é universal. Nem todo conceito consagrado respeita o íntimo de quem vai habitar o espaço. Arquitetura não é um molde onde as pessoas precisam caber.
Muita gente deixa de contratar arquitetos e designers, não por falta de valorização do trabalho, mas porque não quer se sentir desrespeitada dentro da própria casa. Querem espaços que acolham, não que imponham. Casas que sustentem a vida real, não que a corrijam. Quando o morador precisa se justificar o tempo todo, quando aprende a silenciar o próprio desconforto para “não ser difícil”, algo está errado no processo — mesmo que o projeto esteja impecável. Casa não deveria ser um lugar de defesa. Projeto não deveria exigir adaptação emocional constante.
Arquitetura não é sobre convencer alguém a caber num projeto tecnicamente correto. É sobre construir, com responsabilidade, um espaço onde aquela pessoa possa existir sem se justificar. Isso exige mais do profissional. Exige escuta real. Exige presença. Exige ética. Mas é exatamente isso que transforma um espaço bonito num espaço verdadeiramente habitável.
Escrevo isso também a partir de experiências em que vi a desconsideração se disfarçar de “solução correta”, de discurso técnico, de suposta ajuda. Situações em que a dor do outro foi usada para validar uma teoria, uma técnica ou uma convicção pessoal — sem cuidado, sem escuta, sem responsabilidade. Quando alguém precisa provar que está certo, em vez de sustentar o outro, algo já se perdeu.
Arquitetura, assim como qualquer prática que lide com pessoas, não deveria reforçar esse tipo de atravessamento. Antes de querer ajudar, é preciso saber escutar. E, muitas vezes, reconhecer que nem toda solução serve para todos — e que isso sim, é respeito.
Grata pela visita e pelo seu tempo,
Ulla.
