Como o script decide quem pertence

 

Existir fora do script tem um custo. Às vezes, não é confronto nem discordância: é apenas viver de um jeito que não estava previsto em sistemas que preferem trajetos repetidos. Coerência, propósito e silêncio já bastam para gerar incômodo.

 

Na arquitetura e no design de interiores, essas dinâmicas também existem. Apenas vestem outra linguagem.

 

O mercado ajuda a criar estigmas. Não apenas sobre o que deve ser feito, mas sobre quem pode fazer, para quem e de que maneira. Há discursos consagrados, soluções legitimadas, caminhos considerados seguros. Fora deles, tudo passa a ser visto como pouco viável, pouco comercial ou simplesmente inconveniente. Não se trata de técnica. Trata-se de leitura de mundo.

Quando um profissional escolhe não trabalhar condicionado a comissões, por exemplo, ele desloca a lógica da relação. Nenhuma loja o prende. Nenhum fornecedor o compra. O produto precisa, de fato, ser bom. O atendimento precisa, de fato, funcionar. Isso não é heroísmo — é um posicionamento. Mas escolhas assim tendem a incomodar sistemas baseados em reciprocidades silenciosas.

O mesmo acontece com a defesa da reforma como conceito. Reformar não é improvisar. Não é “dar um jeito”. Reformar é, antes de tudo, respeitar o que algo é. Todo espaço, toda peça, toda edificação carrega uma identidade e limites próprios. Há até onde é possível ir sem descaracterizar. Passados esses limites, não há projeto — há violência simbólica. Forçar algo a ser o que não é, apenas para atender expectativas externas, modismos ou objetivos alheios, não é criação. É desrespeito.

Reformar exige escuta. Exige maturidade para reconhecer quando algo pode ser acolhido e quando já não serve mais. Há momentos em que respeitar significa integrar ao próprio acervo. Em outros, significa aceitar que aquela peça não faz mais sentido para aquela vida. O que não é aceitável é machucar algo — espaço, objeto ou pessoa — para que se encaixe à força em um desejo que não lhe pertence.

Curiosamente, o mercado costuma punir essa lógica. Reformar sai mais caro. Dá mais trabalho. Não há uma cadeia inteira interessada em sustentar o reaproveitamento. E assim, muitas vezes, o novo vence não por ser melhor, mas por ser mais conveniente ao sistema. Há ainda o descarte do que não está em evidência. Materiais, soluções, estéticas e referências são empurrados para fora não porque deixaram de funcionar, mas porque deixaram de servir a ciclos específicos de consumo. Durante muito tempo, reutilizar, resgatar ou escolher fora da moda foi visto como algo menor. Hoje, começa a ser reembalado como tendência — desde que possa ser controlado, curado e vendido.

Quem trabalha com uma leitura mais livre da arquitetura — menos alienada, menos orientada por status e mais comprometida com sentido — acaba, muitas vezes, ocupando um lugar desconfortável. Não porque confronte o mercado, mas porque demonstra, na prática, que existem outros caminhos possíveis. E novamente, a exclusão não acontece de forma direta. Ela aparece na sutileza das listas. Na ampliação estratégica de convidados. Na inclusão sempre justificada por discursos neutros, educados e irrepreensíveis. “Vamos dar espaço a pessoas novas.” “Para não parecer preferência.” “Para incluir mais gente.” Tudo muito correto. Tudo muito elegante. Mas o efeito é claro: reduzir a circulação de uma leitura que poderia provocar perguntas demais dentro de um sistema que prefere respostas prontas. Talvez esse tipo de exclusão fosse mais eficaz em tempos mais fechados. Hoje, com acesso amplo à informação e múltiplas referências, silenciar uma visão não impede que ela exista. Apenas retarda o encontro. E, muitas vezes, esse encontro acaba vindo de outro lugar — por outra voz, talvez menos cuidadosa, menos educada, menos preocupada com o verniz.

A arquitetura, no fim, sempre revela o que somos enquanto sociedade. Inclusive na forma como escolhemos quem pode — ou não — ocupar determinados espaços. Existir fora do script custa lugar. Mas também preserva algo fundamental: a liberdade de continuar existindo inteiro.

 

Grata pela visita e pelo seu tempo,

 

Ulla.  :)