CasaCor: o que levar para casa além das fotos

 

Visitei a CasaCor São Paulo. Foram cerca de duas horas percorrendo setenta ambientes. Para muita gente, isso pode parecer pouco tempo, mas depois de mais de vinte anos trabalhando com arquitetura e design de interiores, aprendi que a experiência não está necessariamente no tempo que passamos em um lugar, mas na forma como aprendemos a olhar. Tenho ido às mostras muito menos em busca de ambientes completos e muito mais em busca de detalhes: fotografo um acabamento, uma paginação, um encontro entre materiais, uma solução de iluminação, uma textura, um desenho de marcenaria ou um jeito diferente de combinar tecidos. Hoje, volto para casa com muito mais fotos de detalhes do que de ambientes inteiros. Não porque os ambientes não sejam importantes, mas porque eles são apenas uma forma de organizar inúmeras pequenas decisões. E são essas pequenas decisões que, muitas vezes, carregam a verdadeira novidade.

 

Talvez essa seja uma consequência natural do tempo de profissão. Depois de tantos anos projetando, nosso olhar muda. Aprendemos a fazer uma leitura muito rápida do conjunto e, quase sem perceber, começamos a filtrar aquilo que realmente acrescenta repertório - o restante passa.

 

E isso me fez pensar em uma pergunta: como uma pessoa que não trabalha com arquitetura, pode aproveitar uma visita à CasaCor?

 

Acredito que muita gente sai de uma mostra com uma sensação estranha: ou acha tudo maravilhoso, ou acha tudo exagerado, ou sai pensando que precisa atualizar a própria casa. Pior ainda... Conclui que a sua casa nunca será bonita daquele jeito. Talvez porque ainda exista a ideia de que uma mostra de arquitetura serve para mostrar "o que está na moda". (Pelo amor de Deus – não caia nisso!!!)

 

Durante muitos anos, isso fez bastante sentido. As mostras apresentavam tendências de uma maneira muito evidente. Era comum existir uma cor predominante, um tipo específico de madeira ou um revestimento que aparecia em praticamente todos os ambientes. Quem trabalha há mais tempo certamente vai lembrar de algumas fases muito marcadas.

 

As tendências continuam existindo – continuamos tendo a “cor do ano”, os fabricantes continuam lançando novas coleções e as marcas continuam apresentando seus produtos. Só a sensação que tive nesta edição, foi diferente. Percebi uma liberdade maior do material ser o que ele é. Veios, grânulos, imperfeiçoes – estava tudo lá.

 

Também encontrei muito mais diversidade de cores e combinações, do que uma tentativa de impor uma única direção estética. Não senti uma obrigação de seguir um caminho específico.

Vi possibilidades. Isso talvez reflita não apenas uma mudança na arquitetura, mas também uma mudança no comportamento. Hoje já não esperamos uma mostra acontecer para descobrir o que será tendência. As referências chegam até nós diariamente (redes sociais, fabricantes, viagens, lojas, algoritmos). Quando a CasaCor abre as portas, muita coisa já circulou. Por isso, ela deixou de ser, para mim, um lugar de respostas e sim, um lugar de observação.

 

Só que existe um ponto que considero ainda mais importante: uma mostra de arquitetura não representa uma casa. Ela representa uma ideia. Ali existe um recorte e uma interpretação de mundo feita por um profissional. Cada ambiente traduz uma maneira de pensar a arquitetura e o design. Não existe uma lei dizendo que uma sala precisa ser daquele jeito, nem que uma cozinha deve seguir aquela composição, nem que um banheiro bonito obrigatoriamente tenha aquele revestimento. Aquilo é uma proposta, uma conversa. E, como toda conversa, ela parte do repertório de quem a está propondo.

 

Também existe outra diferença importante. Os ambientes de uma mostra vivem uma realidade muito específica. Neles não há crianças espalhando brinquedos pela sala, não há um cachorro correndo atrás da bola, não há mochila jogada sobre a cadeira, não há compras chegando depois de um dia cansativo, não há roupa esperando para ser dobrada, não há rotina. E é justamente porque não precisam responder ao cotidiano que esses espaços podem experimentar mais, provocar, exagerar. Enfim, podem explorar materiais e soluções que talvez não fossem possíveis em uma casa real.

 

Por isso, acredito que visitar uma mostra é muito mais sobre sentir uma ambientação do que imaginar se aquele espaço funcionaria exatamente da mesma forma na sua vida. Existe uma pergunta muito mais interessante: como me sinto aqui? Confortável, calmo, acolhido? Essas respostas pertencem somente a você. (E não é a legenda do ambiente, nem a placa do patrocinador e nem o stories do influenciador que vai dizer isso pra vc – e se for, sugiro voltar duas casas...). E talvez esse seja o maior presente que uma mostra pode oferecer: não dizer do que você deve gostar, mas ajudar você a descobrir do que realmente gosta.

 

E outra...  Existe uma tendência de imaginar que, por estar em uma grande mostra, tudo precisa ser admirado, como se o visitante tivesse obrigação de gostar. Não tem. Arquitetura e design são linguagens. E linguagem nunca produz unanimidade. Não gostar de algo, significa apenas que aquela conversa não aconteceu. Você pode admirar a técnica de um ambiente e, ainda assim, não querer viver nele.

 

Vá com a cabeça aberta: sem a obrigação de concordar com tudo, sem a ansiedade de descobrir "o que está na moda", sem o peso de achar que aquilo precisa virar regra dentro da sua casa. No fim das contas, visitar uma mostra não é um exercício de copiar. É um exercício de ampliar o repertório. E repertório não serve para substituir quem você é - serve para ajudar você a fazer escolhas cada vez mais conscientes sobre a forma como deseja viver. Se, ao sair de lá, você voltou para casa conhecendo um pouco mais sobre o seu próprio olhar, então a visita já valeu a pena.

 

Grata pela visita e pelo seu tempo,

 

Ulla.