Em algum momento da trajetória profissional, muitos arquitetos se deparam com uma pergunta incômoda — ainda que nem sempre formulada com clareza: até onde eu estou exercendo meu trabalho e a partir de onde começo a me distanciar de mim?
Essa linha não é objetiva. Ela não aparece em contratos nem em códigos de conduta.
Mas existe — e costuma se manifestar primeiro como desconforto, antes de virar reflexão.
Nos últimos anos, muito se fala sobre ética, posicionamento profissional e responsabilidade. Textos bem escritos, palestras inspiradoras, discursos corretos. Tudo muito necessário. Mas existe um ponto menos confortável nessa conversa: ética não é apenas um conceito bonito — é uma prática cotidiana, aplicada em situações reais, muitas vezes ambíguas. E é justamente nessas zonas cinzentas que o arquiteto deixa de ser sujeito no processo. Nesse lugar, o profissional corre o risco de se tornar parte do cenário. Algo que valida desejos, reforça narrativas e sustenta imagens — nem sempre conectadas à vida que será vivida naquele espaço.
É curioso perceber que muitos de nós saímos da faculdade desejando esse reconhecimento. Ele vem embalado como sucesso, segurança financeira, prestígio. E, em certa medida, ele entrega mesmo tudo isso. O que raramente se discute é o custo subjetivo desse lugar.
Quando o arquiteto passa a ser escolhido mais pela imagem que representa do que pela escuta que oferece, algo se desloca. O projeto pode até estar tecnicamente correto, esteticamente impactante, socialmente validado — mas o processo deixa de ser relacional.
Arquitetura sempre esteve ligada ao desejo. O problema não é atender desejos. A questão é quais desejos são sustentados, e a que preço interno.
Existe uma diferença importante entre traduzir um desejo legítimo e operar num jogo onde tudo precisa performar. Onde a casa vira vitrine. Onde o espaço impressiona mais do que abriga. É nesse ponto que a conversa sobre ética costuma ficar abstrata. Porque é sempre mais fácil identificar a falta de ética no outro. No cliente difícil. No colega oportunista. No mercado “do jeito que está”. Raramente a pergunta é feita para dentro: onde eu cedo além do que consigo sustentar?
Talvez não exista uma resposta única, mas alguns sinais costumam aparecer quando esse limite começa a ser atravessado:
– quando questionar se torna indesejável;
– quando o desconforto é recorrente e justificado como “faz parte”;
– quando o projeto atende expectativas externas, mas fere valores pessoais;
– quando o reconhecimento cresce, mas o respeito por si diminui.
Há muitas pessoas que procuram projetos coerentes, honestos, possíveis.
Espaços que funcionem tanto nos dias simples quanto nos dias especiais. E há profissionais que, com o tempo, percebem que sucesso sem alinhamento cobra um preço alto demais. Talvez maturidade profissional seja justamente isso: entender que nem todo trabalho precisa ser aceito, que nem toda demanda merece ser atendida,
e que preservar a própria integridade também é parte do ofício.
Arquitetura não é objeto de ostentação. Não é troféu. Não é extensão do ego de ninguém. Ela é técnica, escuta, responsabilidade e relação. E só continua fazendo sentido quando permanece humana — para quem contrata e para quem projeta.
Grata pela visita e pelo seu tempo,
Ulla. :)
